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Desfile da Mondepars mostra que a moda ainda tem sensibilidade

Por Júlia Marques · 28/05/2026
Ze Takahashi

No desfile da Mondepars, que ocorreu na manhã dessa quarta-feira (27/05) em São Paulo, havia uma voz que o público ainda não conhecia. Para apresentar as novas criações de Sasha Meneghel, os modelos percorreram a passarela enquanto um áudio antigo tomava o espaço: era Alda Meneghel, avó de Sasha, falecida em 2018, cantando “Estrela do Mar”. Xuxa, que estava na plateia, não se conteve, se desmanchou em lágrimas. E, assim, logo no começo, o desfile já tinha chegado onde só a memória alcança.

A coleção Inverno 2026 da Mondepars foi intitulada “Alda”, e carrega no nome tudo o que é: uma homenagem íntima transformada em roupa de verdade. Sasha Meneghel manteve o projeto em segredo até o último momento — inclusive da própria mãe, que teve acesso apenas a alguns croquis. O restante foi revelado na passarela, quase como um presente.

Ze Takahashi
Ze Takahashi

Costureira, pintora, leitora de mãos e matriarca, Alda Meneghel foi muitas coisas ao longo de uma vida rica e singular. Nascida em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, perdeu o pai ainda criança e encontrou abrigo junto a um grupo cigano, onde desenvolveu sua sensibilidade artística e aprendeu a ver o mundo de outros ângulos. Mais tarde, foi para um convento estudar para tornar-se freira — caminho que abandonou ao se apaixonar por Luiz Floriano Meneghel, jovem soldado com quem construiu uma família e tanto.

Esse DNA de mulher livre, criativa e capaz de reinventar o próprio destino foi o que Sasha quis expor nas roupas. E foi, inclusive, Alda quem fez os primeiros figurinos de Xuxa como Rainha dos Baixinhos — uma costura literal entre gerações que, na coleção de 2026, se tornou também metáfora.

Ze Takahashi
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O desfile percorreu a trajetória da avó de Sasha de forma sensível, com o encerramento da primeira noiva da história da Mondepars na passarela. Foi um desfile que contou uma vida.

No campo técnico, a coleção aprofunda a gramática já conhecida da marca: alfaiataria com lapelas bem desenhadas, ombreiras estruturadas e calças com caimento impecável. As referências circenses e a espontaneidade do ateliê doméstico aparecem em gestos discretos, como em uma gravata reinventada ou uma sobreposição inusitada — como se a rigidez do corte cedesse, vez ou outra, ao humor e à liberdade de Alda. A paleta de cores é sóbria, com pequenos toques de vermelho, azul e verde.

Ze Takahashi
Ze Takahashi

A coleção é prevista em duas partes. A de inverno, apresentada ontem, e uma continuação para o verão. Uma trajetória que, em pouco mais de dois anos, foi da estreia ao amadurecimento com uma consistência pouco comum.

Sasha Meneghel não precisou de grandes gestos para emocionar. Precisou de uma gravação antiga, de memórias bem costuradas e de coragem para colocar a memória mais pessoal no lugar mais público que existe: a passarela. A moda, quando feita assim, ainda tem muito a dizer, e que privilégio é sentir tanta sensibilidade através dela.