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Comportamento

O que a polêmica do babydoll de Olivia Rodrigo revela sobre o novo álbum

Por Júlia Marques · 12/06/2026
Reprodução/Instagram/@oliviarodrigo

Existe um momento específico na vida de muitas mulheres em que o amor finalmente chega e, ainda assim, algo continua faltando. Olivia Rodrigo conhece essa dor.

O álbum “You Seem Pretty Sad For A Girl So In Love”, lançado nesta sexta-feira (12/6), chega embalado em controvérsias fashion. O videoclipe do primeiro single, “Drop Dead”, apresenta Olivia vestida em um babydoll azul da coleção pré-outono 2026 da Chloé.

Delicado, etéreo e quase coberto. Porém, para alguns, foi visto como uma escolha “inapropriada” por tentar sexualizar uma imagem infantil.

Reprodução/Instagram/@oliviarodrigo
Reprodução/Instagram/@oliviarodrigo

O babydoll tem uma história longa no armário feminino, e ela não começa nem termina na infantilidade. É uma peça que carrega em si uma contradição bonita: a leveza do tecido que cai suave sobre o corpo e a silhueta que não define, não aperta e não performa para ninguém.

Nos anos 1990, ele era o uniforme não oficial de uma geração de mulheres inspiradoras, como Courtney Love e Kathleen Hanna, do Bikini Kill. Ao adotarem a peça em contextos de rebeldia e luta feminista no mundo da música, elas ajudaram a desmontar a ideia de que feminilidade e agressividade ocupam lados opostos.

Então, quando Rodrigo escolheu essas referências, ela não queria se infantilizar:

“Eu pensei: ‘Isso é tão legal. Me sinto parecida com a Kathleen Hanna ou a Courtney Love‘… todas essas pessoas que são minhas heroínas. E me senti bem e confortável assim. Acho que se começarmos a nos vestir de um jeito que a gente pense: ‘Ah, não quero que algum maluco ache que sou sexy como um bebê’, ou algo do tipo, seria como perder um pouco o rumo.”, disse a cantora ao Popcast do New York Times.

A reação do público, então, revelou algo muito mais desconfortável do que qualquer escolha de um figurino poderia revelar: a incapacidade de algumas pessoas verem uma mulher sem imediatamente projetá-la em um papel que ela nunca pediu.

“Já usei um sutiã brilhante e shorts curtos no palco, e isso não era ‘inapropriado’. Mas eu, coberta com um vestido que as pessoas consideram infantil, é ‘inapropriado'”, comentou.

A lógica que ela expõe é antiga, mas continua presente no dia a dia de várias pessoas, pois a mulher é responsabilizada não pelo que faz, mas pelo que os outros pensam sobre ela:

“Tem essa retórica que nos impõem desde pequenas, que é: ‘Não use isso porque aí um homem vai sexualizar seu corpo e a culpa é sua’. É muito estranho. E eu não achei que fiquei sexy com aquela roupa, de jeito nenhum. Isso mostra como realmente normalizamos a pedofilia em nossa cultura”, finalizou a artista.

Reprodução/Instagram/@oliviarodrigo
Reprodução/Instagram/@oliviarodrigo

E há algo que une o babydoll e o álbum de uma forma que vai além da coincidência estilística. “You Seem Pretty Sad For A Girl So In Love” parece falar precisamente sobre o que acontece quando a menina que foi ensinada a acreditar no amor como salvação cresce e descobre que a salvação nunca deveria vir de fora.

Esse é o fio que conecta a estética aos temas. Durante décadas, mulheres foram ensinadas a enxergar o amor como uma recompensa futura, sempre condicionada à chegada de alguém.

Quando essa promessa não se cumpre — ou quando se cumpre apenas parcialmente — sobra uma sensação difícil de explicar. E não é a ausência de amor, mas a descoberta de que ele nunca poderia carregar sozinho o peso de uma vida inteira.

A moda, nesse contexto, vira quase um argumento. Quando uma mulher escolhe um babydoll azul para um videoclipe — uma peça delicada, com acabamentos que remetem ao mundo cinematográfico dos anos 1960 e ao mix de rebeldia, conforto e minimalismo dos anos 1990 ao mesmo tempo — ela está fazendo uma curadoria de identidade. Está dizendo algo sobre onde ela se situa no mundo, sobre o que considera bonito e sobre quem a inspira.

O problema, como Rodrigo apontou, é que o mundo ainda não aprendeu a ouvir o que uma mulher quer dizer. Prefere sobrepor a própria leitura. E quando essa leitura é sexualizada, prefere culpar o outro por isso.

“Não quero que elas sejam expostas a esse tipo de discurso”, disse Rodrigo sobre as fãs mais jovens. “Ninguém deve ser responsabilizado por um homem sexualizá-la de uma forma que nunca foi sua intenção.”

E algumas pessoas provalvelmente vão continuar tentando interpretar isso de forma equivocada, mas, ela, aparentemente, já decidiu não se importar.