Juliano Floss e cueca de renda: desde quando roupa define sexualidade?
Era só uma cueca de renda por baixo de uma calça jeans de cintura baixa… mas bastou essa fração de tecido para que o ex-BBB Juliano Floss virasse alvo de piadas nas redes sociais. Em vídeo publicado após o look viralizar, o ex-participante de De Férias com o Ex Pedro Ortega debochou da escolha do influenciador com a manchete “Héteros de calcinha: Juliano Floss confunde a web após exibir sua cueca de renda”, com o apoio das risadas do ex-BBB Jonas Sulzbach nos comentários.

Casos de feminilidade na moda masculina
O roteiro é sempre o mesmo: um homem usa uma peça associada ao guarda-roupa feminino, e a internet decide, em coro, que isso prova algo sobre sua sexualidade.
O caso de Juliano não é isolado. É um capítulo recente de uma sequência que já virou padrão na cultura brasileira. O ator João Guilherme foi hostilizado virtualmente por usar cropped durante a Semana de Moda de Paris em 2023, com direito a comentários machistas e homofóbicos de famosos como Nego Di, que insinuou publicamente que a peça denunciava um suposto desejo do ator. O ex-BBB Gabriel Santana viveu, no mesmo ano, uma situação similar na web ao usar o mesmo corte de peça durante o programa.
O fio que conecta os três episódios é sempre a mesma operação de pensamento: peça de roupa associada ao feminino = sexualidade colocada em xeque. É uma equação que não fecha, e a teoria da moda ajuda a explicar por quê.


O verdadeiro alvo nunca foi a roupa
Muitas vezes, a sociedade tem a mania de olhar para a roupa de alguém e tirar conclusões automáticas sobre a orientação sexual dessa pessoa. A socióloga Joanne Entwistle, no livro The Fashioned Body, ajuda a quebrar essa ideia de um jeito muito interessante.
Em vez de pensar na roupa apenas como um objeto ou um pedaço de tecido, ela afirma que o ato de se vestir faz parte de como vivemos e movimentamos o nosso corpo no dia a dia. Para ela, as roupas funcionam como uma espécie de “performance” de quem nós somos. Ou seja: o que você veste ajuda a mostrar como você quer se apresentar para o mundo em uma determinada situação, mas um estilo de roupa não é um outdoor que anuncia a sua intimidade ou sexualidade.
Com base em pensadores que estudam o comportamento humano, como Foucault, Goffman e Bourdieu, a autora explica que a forma como vemos o nosso corpo é moldada pela cultura em que vivemos. No livro, ela deixa claro que gênero e sexualidade são assuntos diferentes, e dedica até mesmo capítulos separados para explicar a relação da moda com cada um deles.
E quando as pessoas confundem essas duas coisas, elas cometem um erro que ignora o peso e a pressão que a sociedade coloca sobre os corpos. Sabe aquela ideia bonita de que somos 100% livres e criativos na hora de escolher um look? A autora alerta que, na vida real, não é bem assim…
A forma como você se veste é, na verdade, um “cabo de guerra” entre o gosto pessoal e as regras invisíveis e expectativas do ambiente em que vivemos, como trabalho, família e amigos. Famosos que estão constantemente em cenários e contextos de moda, têm motivos para usarem peças fora do comum para além da orientação sexual, por exemplo.

O que os casos de Juliano Floss, João Guilherme e Gabriel Santana têm em comum, portanto, não é uma suposta “pista” sobre a sexualidade de cada um. É a mesma reação de desconforto diante de homens que decidem não caber no armário estreito e repleto de regras reservado à masculinidade tradicional.
A piada, o deboche e a insinuação funcionam como mecanismo de controle: tentam fazer esses homens recuarem, como aconteceu com o próprio João Guilherme, que declarou publicamente ter deixado de usar cropped depois de terem rotulado a sexualidade dele repetidas vezes na internet.
E talvez a pergunta mais interessante não seja “ele é ou não é?”, mas sim por que ainda achamos que essa pergunta nos diz respeito. A cueca de renda de Juliano Floss não revela nada sobre a orientação sexual do influenciador, só revela o quanto a sociedade ainda trata a masculinidade como um território a ser defendido, e não como um simples espaço de escolha.
